Já disse aqui que gosto de história né?! (tô me achando repetitiva, gente!) Então é claro que esse livro me chamou atenção na última – e fatídica, do ponto de vista financeiro – passada na Livraria Cultura: A tristeza da rainha . Acompanhei por um tempo a série The Tudors, gosto muito do filme A Outra e adorei passear pela Tower of London quando estive na capital inglesa. Fiquei impressionada com tanta admiração que os ingleses tem por Henrique VIII, que é referência histórica muito forte e domina a maior parte das histórias do local (eu sei que tal relevância é pertinente, mas nunca pensei que fosse tanto).

Voltando da minha divagação, achei este livro que fala da primeira filha de tal rei, Maria Tudor, filha de Henrique com Catarina de Aragão, sua primeira esposa. Só para situar historicamente vocês, Maria chega ao trono inglês após a morte do seu irmão e um clamor popular pela rainha de direito assumir o posto. A história se passa após o casamento dela com o príncipe Filipe, da Espanha. Como a rainha já se encontrava em idade avançada (naquela época 32 anos já era considerada idade avançada), o povo foi, aos poucos, perdendo a esperança de que ela desse um herdeiro. Maria também era católica fervorosa, como sua mãe, e foi a responsável pela volta da Inglaterra a Roma e o rompimento com a igreja anglicana, criada por seu pai.

A história é toda contada do ponto de vista de um espanhol que foi até o país construir um relógio de sol, junto com diversos outros conterrâneos do príncipe. Rafael fica instalado na casa de uma família inglesa e acaba convivendo com uma cultura completamente diferente da que está acostumado, em parte pelo frio e em parte pelos costumes. Após duas colheitas desastrosas e uma rainha que parece perdida sem saber como comandar seu povo, a insatisfação popular vai ganhando cada vez mais força. Essa época foi de perseguições religiosas e fogueiras no país e a rainha ficou conhecida na história como Bloody Mary.

Como já disse aqui que tenho dificuldade de dizer que não gostei de um livro, encontrei uma maneira de demonstrar meu incompleto contentamento. Eu esperava um pouco mais, um pouco mais sobre a rainha e menos sobre o personagem espanhol, já que o título é sobre a rainha. Do ponto de vista histórico achei bastante interessante, apesar de acreditar que a situação foi mais dura e sanguinária do que o retratado no livro. Ah! E o final me surpreendeu de certa forma. Fiquei pensando como a história terminaria ao longo de todo o livro e não consegui apostar todas as minhas fichas em um desfecho. Recomendo para quem gosta de história. Um pequeno teaser pra vocês e a ficha lá no fim. 😉

“Não que não houvesse chuva na Espanha. Chovia em abundância às vezes, algumas delas em agosto; outras chuvas duravam o dia inteiro, talvez até vários dias, mas quando acabavam, o sol voltava pleno ao céu. Na Espanha, as pessoas se maravilhavam com a chuva, se abrigavam, toleravam. Era exuberante: uma aparição.”

“Inglaterra: uma pequena ilha estreita em sua parte superior, afastada de todos os lugares. Um canto distante do mundo, onde o mar se vira para dentro de si mesmo, com ondas impetuosas e sol indiferente.”

“A filha única, desprezada e meio espanhola, fruto daquele primeiro e mal fadado casamento, era rainha, casada com um espanhol, e aquele palácio era seu.”

“É claro que haviam pedintes em Sevilha, aos milhares, negros e brancos, vindos de toda a Espanha e das colônias: todos iam para Sevilha. Mas ali, em Londres, parecia diferente. Pior. Aquelas pessoas – as pequenas, particularmente – eram abjetas.”

“Tinha uma aparência muito inglesa: pele ressecada pela lareira, acinzentada mas corada, como se tivesse sido escaldada.”

“Sentia que seu amor impotente e desesperançado devia ter uma explicação. Depois aceitou que estivera procurando por uma desculpa: ela sempre fora ela, ele sempre fora ele e, portanto, sempre a amara, mesmo quando não tinha gostado muito dela, mesmo quando não tinha certeza de quem ela era.”

“Estou virando inglês, isso sim, brincava friamente consigo mesmo: estava interessado em nada mais além de comer. Os ingleses bebiam também, mas sua sede de cerveja ia muito além do que poderia ser educadamente chamado de interesse.”

“O inverno caía sobre a Inglaterra após uma colheita desastrosa e haveria escassez de alimento por muito tempo.”

“Mas não se queimavam pessoas na Inglaterra. Na Espanha e nos países sob o domínio espanhol, sim, mas essa era uma das principais objeções dos ingleses: que os espanhóis eram selvagens que queimavam pessoas vivas. Os espanhóis amarravam as pessoas, faziam uma fogueira sob seus pés e as deixavam, para queimar como lixo. Mas os ingleses não faziam isso. Tinham outros métodos.”

“Era fácil para os ingleses culpá-la, não gostavam mesmo dela. Gostaram da ideia em torno dela, da herdeira por direito, da injustiçada; tinham feito grande alarde em torno disso, mas não gostavam da mulher intensamente católica e deselegante.”

“Os ingleses eram sinceros, essa era a impressão de Rafael. (…) Os ingleses eram pessoas práticas, sem amor por magia e mistério.”

“Apesar da atmosfera problemática, casa vez mais gente chegava a Londres. A causa era o fracasso da colhieta: p segundo ano seguido, um ano a mais que o povo conseguiria aguentar.”

“Em alguns meses, algumas daquelas pessoas estariam vendendo as suas botas e cobertores para comprar comida.”

“Se a gente espera por algo, por alguém, como saber quando desistir?”

Livro: A tristeza da rainha

Autor: Dunn, Suzannah

Editora: Record

Páginas: 246

Preço médio: R$ 42,90

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