Eu acordo correndo. Não. Na verdade, eu durmo correndo. Sim, é bem isso, eu durmo correndo para dar tempo de levantar e fazer todas as coisas que eu me proponho no dia e que os outros me obrigam. Porque é bem assim, faço coisas que eu não gostaria e quando me dou conta não consegui fazer metade das que gostaria. Quando deito para dormir, se não leio meu livro (meu sonífero natural), fico me debatendo, organizando e cronometrando meu tempo do dia seguinte. Mas não é só comigo que acontece isso. Recentemente, li uma matéria da revista TPM em que dizia que as mulheres andam “presas à sua liberdade” e não tem conseguido dar conta de fazer tantas coisas. E o mais preocupante: a lista só aumenta. (vale dar uma lida na matéria no link)

Esses dias, me peguei acordada às 5h cronometrando o tempo que eu levaria para levantar, tomar café da manhã, me vestir, sair de casa, ir até o centro, comprar uns armarinhos que preciso e chegar no trabalho antes das 9h, para poder sair 16h50 e ir buscar a Duda numa aula que matriculei ela nas férias. O estresse com isso foi tamanho que não consegui mais dormir (nem usando técnicas de respiração da yôga) e quando me dei conta, eram 7h30 e a Duda já estava acordando. Não preciso dizer que é lógico que metade disso não aconteceu e, mesmo sendo 10h40 da manhã, já sei que no fim do dia ficarei num nível elevadíssimo de estresse pelo volume de trabalho e a necessidade de sair cedo pra ENFIM poder buscar e minha filha e curtir o restinho do dia das suas férias com ela.

Não fui no centro, não comprei as coisas, não cheguei no trabalho antes das 9h. E ainda quebrei uma unha porque minha mãe ligou e pediu pra eu deixar a Duda pronta (o que não estava na minha lista) e com uma mochila que ela passaria para buscá-la para ela passar a manhã fazendo as entregas para seus clientes com ela. Como estava correndo, bati os dedos na porta da sapateira e por sorte só quebrei a unha e não o dedo. Minha vontade ao sair de casa era sentar e chorar e não eram nem 9h. Daí eu pergunto: é saudável? Lógico que NÃO! Só não fiz isso porque minha filha viu que eu estava estressadíssima (sim, era antes de NOVE DA MANHÃ) e me encheu de beijos, disse que me amava e me esperou na sacada pra me dar tchau e desejar bom trabalho.

Me vejo fazendo mil coisas que não estou a fim simplesmente pelo fato de não querer mais incomodação. Arrumo minha cama de manhã nos finais de semana para não ter que ouvir indiretas, lavo a minha louça e da Duda pra não ter que ouvir resmungos que a pia está cheia mas por nenhum prazer e com um nível considerável de saco cheio e estresse. É válido? Não.

Não quero mais correr e fazer as coisas por obrigação. Esta não é a vida que eu escolhi pra mim, é a vida que estão me obrigando a levar. E por “estão”, me refiro a todas as pessoas que correm loucamente para fazer tudo e controlar tudo que acham que a gente também está disposto a fazer o mesmo. Uma dica: a gente não está. Se você quer bater sua cabeça na parede e surtar porque alguma coisa TEM que ser feita do seu jeito, boa sorte, mas não quero isso pra mim.

Essa correria louca e desenfreada do dia-a-dia, com tantas obrigações e deveres e com muito pouco prazer lota os consultórios de terapeutas e enriquece a indústria de barbitúricos. Na verdade a coisa é tão simples: basta pisar no freio. Só que quem diz não hoje parece grosseiro, parece estar pensando só em si, mas acho que quem diz não está dizendo sim para uma vida mais tranquila, com menos dor de cabeça e menos câncer. Me pergunto onde foi parar a alegria de viver, o prazer de pensar “o que farei agora” ou a possibilidade de simplesmente não faze nada e descansar. E no final, o que ganha quem consegue completar toda sua enorme lista de afazeres ou faz com que o mundo ao seu redor aja do seu jeito? Barras de ouro que valem mais do que dinheiro? Uma medalha de participação? Um parabéns (as pessoas ainda sabem reconhecer as vitórias dos outros?!)? Nenhuma dessas opções e outras mil que pensei me parecem válidas. Fico com Machado de Assis: ao vencedor, as batatas!

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