Lembram  que eu comentei por aqui que tinha comprado um livro do Vargas Llosa e não tinha sido cativada por ele? Pois esses tempos estava terminando um livro e pedi sugestões no FB e meu ex-cunhado sugeriu de novo o mesmo autor. Eu, então, deixei a cargo dele escolher o que ele iria me emprestar. Não sei se foi proposital ou não, mas quando vi estava com Travessuras da menina má em cima da minha mesa.

A história começou um pouco devagar e arrastada, mas logo ela ganhou uma dinamicidade impressionante e eu não conseguia desgrudar do livro. Foi uma semana em que eu dormi muito tarde e que sempre que tinha uns minutinhos, sentava pra ler. O livro conta a história de Ricardo Somocurcio, um jovem peruano, que conhece, durante sua juventude nos anos 50, duas “peruanitas” de passado e presente misterioso e acaba se apaixonando pela Menina Má. Depois de algumas recusas e de alguns anos, decide abandonar o país e trabalhar como tradutor em Paris. Por essas coincidências da vida, ambos voltam a se encontrar em diversas cidades e circunstâncias.

A história que serve de pano de fundo é ligeiramente auto-biográfica e com o passar do tempo, acompanhamos as mudanças sócio-culturais da sociedade. O enredo é tão fascinante que ao lingo do livro nos vemos odiando, apaixonados, e cheios de compaixão pela tal menina má – que é chamada assim durante praticamente todo o tempo. Ponto para o autor, que ganhou uma segunda chance e minha admiração. Obrigada pela dica de persistência, Ivan! Citações aqui embaixo, ficha lá no fim. 😉

“Houve tanta recomposição sentimental no bairro que estávamos todos mio zonzos, os namoros se desfaziam e refaziam e, aos sábados, os casais que saíam das festas nem sempre eram os mesmos que tinham entrado.”

“Não era a melhor coisa que podia acontecer a uma pessoa? Viver, como no verso de Vallejo, entre ‘as frondosas castanheiras de Paris’?”

“As ruas e os cafés estavam lotados e os parisienses andavam todos com a expressão relaxada e simpática que só fazem nos dias de bom tempo, essa raridade.”

“Felicidade, eu não sei nem me interessa saber o que é, Ricardito. Mas tenho certeza de que não é essa coisa romântica e brega que você imagina. O dinheiro dá segurança, proteção, permite aproveitar a vida sem se preocupar com o amanhã. É a única felicidade que se pode apalpar.”

“Tinha me convidado porque precisava de alguém que o ouvisse, precisava dizer em voz alta a alguma testemunha certas cosias que lhe queimavam o coração desde o desaparecimento de sua mulher.”

“No 3 de outubro de 1968, os militares, encabeçados pelo general Juan Velasco Alvarado, deram o golpe que acabou com o regime democrático presidido por Belaunde Terry, este foi para o exílio e teve início uma nova ditadura militar no Peru, que duraria 12 anos.”

“Assim como antes iam fazer a revolução em Paris, muitos latino-americanos emigraram para Londres e se alistaram nos hostes cannabis, da música pop e da vida promíscua. Carnaby Street substituiu Saint Germain como umbigo do mundo.”

“Muitos hippies, talvez a maioria, vinham das classes média ou alta, e sua rebelião era familiar, dirigida contra a vida cheia de regras dos pais, contra tudo aquilo que consideravam a hipocrisia dos seus costumes puritanos e as fachadas sociais que disfarçavam seu egoísmo de isolamento e a falta de imaginação.”

“O segredo da felicidade, ou pelo menos, da tranquilidade, é saber separar sexo e amor. E, se possível, eliminar da vida o amor romântico, que é o que faz sofrer. Assim se vive mais sossegado e se aproveita mais, pode crer.”

“… na vida raramente as coisas acontecem como planejamos.”

“De fato, esta cidade era mesmo a mais bonita do mundo, e eu me esquecera disso por ter passado tantos anos da minha vida nela. Vivia cercado de tantas coisas belas e quase não as via.”

“Essas idiotices só se fazem uma vez, quando você está imbecilizado de amor por alguma mulher. Não é mais meu caso, infelizmente.”

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